Noticias

Como uma transição bem conduzida pode transformar a percepção de empresas de ativos virtuais no mercado?

Paulo de Matos Junior
Paulo de Matos Junior

A transição regulatória não começa com o preenchimento de um formulário ao Banco Central. Para empresas que já atuam com criptoativos, o desafio principal é demonstrar que uma operação construída ao longo do tempo pode funcionar sob responsabilidades formais, controles verificáveis e padrões consistentes de transparência. Isso exige converter práticas baseadas em experiência interna em processos documentados, testáveis e supervisionados.

A Resolução BCB n.º 519 estabeleceu as regras de autorização para as sociedades prestadoras de serviços de ativos virtuais, as SPSAVs, e definiu procedimentos específicos para instituições que já exerciam essas atividades. Na avaliação de Paulo de Matos Junior, empresário do segmento financeiro com atuação em câmbio e intermediação de criptoativos, esse movimento pode separar o crescimento improvisado de uma consolidação institucional. A comparação entre os dois cenários ajuda a visualizar o que precisa mudar.

A regulamentação realmente reduz a agilidade nas empresas ou cria novos padrões de eficiência?

Em empresas que cresceram antes da regulamentação, decisões relevantes podem ter ficado concentradas nos fundadores ou em poucos profissionais. A experiência dessas pessoas é valiosa, mas não substitui uma matriz de responsabilidades, critérios de aprovação e registros capazes de explicar por que determinada decisão foi tomada.

No ambiente regulado, a empresa precisa deixar claro quem decide, quem executa e quem revisa. Essa definição alcança cadastro, custódia, transferências, atendimento, prevenção a ilícitos e resposta a incidentes. A mudança não elimina a agilidade empresarial; reduz, porém, a dependência de acordos verbais e cria uma referência comum para toda a equipe.

Quais os riscos de manter cadastros e ordens em sistemas diferentes e desconectados? 

Outro traço comum da fase inicial é a dispersão das informações. O cadastro pode estar em uma ferramenta, as ordens em outra, a custódia em um terceiro ambiente e os registros de atendimento em planilhas ou sistemas sem integração. A empresa acumula dados, mas não consegue reconstruir rapidamente o histórico completo de uma operação.

Paulo de Matos Junior alude que a transição exige priorizar rastreabilidade. Os sistemas não precisam ser idênticos, mas devem trocar informações de forma segura e permitir conciliações, trilhas de auditoria e identificação de divergências. Essa integração se torna ainda mais importante quando a operação envolve ativos de clientes, terceiros, carteiras externas ou conexões com o mercado de câmbio.

Paulo de Matos Junior
Paulo de Matos Junior

A segurança se limita apenas à autenticação e criptografia?

A segurança também costuma ser compreendida de maneira estreita. Investimentos em autenticação, criptografia e monitoramento de servidores são indispensáveis, mas não resolvem sozinhos questões sobre acessos privilegiados, fornecedores, continuidade do serviço e comunicação durante uma crise. O resultado pode ser uma plataforma tecnicamente protegida, mas sem um plano operacional completo.

A estrutura madura inclui pessoas, processos e recuperação. É preciso revisar permissões, testar cópias, simular indisponibilidades, classificar incidentes e definir quem pode suspender uma movimentação. A regulamentação do Banco Central inclui segurança, governança e controles internos entre as responsabilidades das prestadoras de serviços de ativos virtuais.

Como mapear lacunas e priorizar riscos críticos pode fortalecer a capacidade institucional da empresa?  

Tratar a autorização como uma tarefa de reunir documentos perto do prazo é um erro estratégico. A análise regulatória alcança a capacidade institucional da empresa, seus responsáveis, seus controles e a maneira como o modelo de negócio administra riscos. Quando os documentos não correspondem à prática, a formalização pode expor fragilidades que antes permaneciam dispersas.

A preparação mais consistente começa com um diagnóstico entre o que a empresa declara e o que realmente executa. Segundo Paulo de Matos Junior, esse trabalho envolve mapear lacunas, priorizar riscos críticos, registrar planos de correção e reunir evidências. A exigência de relatório de asseguração razoável, emitido por auditoria independente registrada na Comissão de Valores Mobiliários, reforça a necessidade de procedimentos verificáveis por terceiros.

De obrigação de conformidade à previsibilidade de mercado

Uma transição bem conduzida não transforma a empresa de ativos virtuais em uma organização burocrática. Ela cria condições para que clientes, parceiros bancários, investidores e autoridades compreendam como a operação funciona e quais salvaguardas existem. A previsibilidade torna-se um ativo especialmente relevante em um setor no qual confiança e tecnologia precisam avançar juntas.

O ambiente regulado também favorece uma seleção mais clara entre modelos de negócio. Empresas preparadas reconhecem limites, documentam riscos e corrigem falhas antes que elas se convertam em perdas maiores. Assim, Paulo de Matos Junior conclui que a transição deixa de ser apenas uma obrigação de conformidade e passa a representar a passagem de uma operação apoiada na informalidade para uma infraestrutura capaz de sustentar o próximo ciclo de inovação financeira.