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ESG: Convicção ou marketing? O debate real sobre retorno e sustentabilidade, com Felipe Rassi

Felipe Rassi
Felipe Rassi

Segundo o empresário Felipe Rassi, nos últimos anos, poucas siglas geraram tanto debate no mercado financeiro quanto ESG. Ambiental, social e governança tornaram-se termos centrais não apenas em relatórios corporativos e prospectos de fundos, mas em conversas sobre o futuro do capitalismo e o papel dos investidores na transição para uma economia mais sustentável. Mas, por trás da narrativa bem construída, uma pergunta persiste com toda sua força: investimentos ESG entregam retorno financeiro real ou funcionam principalmente como um instrumento de posicionamento de marca para gestoras e empresas? 

Este artigo examina os dados, os argumentos e as limitações do debate com a seriedade que o tema merece.

O que significa, de fato, investir com critérios ESG?

O termo ESG foi criado para organizar um conjunto de critérios não financeiros que podem influenciar o desempenho de longo prazo de empresas e investimentos. A dimensão ambiental diz respeito à gestão de recursos naturais, emissão de carbono, exposição a riscos climáticos e impacto ecológico das operações. A dimensão social abrange relações trabalhistas, diversidade e inclusão, segurança de produtos e impacto sobre comunidades. A governança trata da qualidade da gestão, transparência, estrutura de remuneração dos executivos e proteção dos direitos dos acionistas minoritários. Juntos, esses critérios formam um mapa de riscos e oportunidades que vai além dos demonstrativos financeiros tradicionais.

Na prática, os fundos ESG adotam abordagens bastante distintas entre si, o que torna comparações generalizadas problemáticas. Algumas estratégias excluem setores inteiros, como armamentos, tabaco e combustíveis fósseis, independentemente da qualidade individual das empresas dentro desses setores. Outras adotam critérios de seleção positiva, escolhendo as empresas com melhores práticas dentro de cada setor, incluindo os mais controversos. Conforme Felipe Rassi, há ainda estratégias de engajamento ativo, onde o gestor usa sua posição de acionista para pressionar mudanças nas práticas corporativas em vez de simplesmente excluir empresas do portfólio.

A proliferação de selos e certificações ESG criou um ambiente de opacidade que dificulta a avaliação independente. Diferentes agências de classificação utilizam metodologias distintas e chegam a notas radicalmente diferentes para a mesma empresa. Uma empresa pode ter avaliação ESG elevada em uma agência e mediana em outra, dependendo dos pesos atribuídos a cada dimensão e da qualidade dos dados disponíveis. Essa inconsistência é um dos principais argumentos dos céticos, que apontam para a falta de padronização como evidência de que o mercado ESG ainda não amadureceu o suficiente para ser levado a sério como critério de investimento rigoroso.

ESG realmente entrega retorno financeiro superior ao longo do tempo?

Como destaca Felipe Rassi, a evidência empírica sobre o desempenho financeiro de investimentos ESG é, honestamente, mista. Estudos acadêmicos realizados antes de 2022 tendiam a mostrar que estratégias ESG apresentavam retornos competitivos com o mercado amplo, especialmente em períodos de alta volatilidade, quando critérios de governança sólida e menor exposição a riscos regulatórios tendiam a proteger as carteiras. A narrativa de que fazer o bem e fazer bons retornos são objetivos compatíveis ganhou tração considerável durante o ciclo de juros baixos e expansão de liquidez global que precedeu 2022.

Felipe Rassi
Felipe Rassi

A reversão de 2022 expôs as fragilidades de algumas teses ESG. Com a crise energética gerada pela guerra na Ucrânia, empresas de energia tradicional, fossil fuels que haviam sido excluídas de muitos fundos ESG, registraram retornos extraordinários. Fundos que haviam zerado sua exposição a esse setor ficaram significativamente para trás do mercado no período. Esse episódio alimentou o argumento dos críticos de que a exclusão de setores inteiros com base em critérios normativos cria distorções de portfólio que prejudicam o investidor financeiramente, mesmo que beneficiem a narrativa de sustentabilidade.

Qual é o futuro real do ESG diante de um mercado cada vez mais cético?

O fenômeno do greenwashing, prática de exagerar ou fabricar credenciais de sustentabilidade para atrair capital, é hoje um dos maiores riscos reputacionais do mercado financeiro. Reguladores em todo o mundo, incluindo a SEC americana e a CVM brasileira, intensificaram a fiscalização sobre fundos e empresas que utilizam o rótulo ESG de forma enganosa. Gestoras que rotularam produtos como ESG sem critérios rigorosos enfrentaram investigações, multas e danos reputacionais que corroeram a credibilidade do segmento como um todo. O mercado está se tornando mais exigente, e isso deve ser visto como um sinal de maturidade, não de rejeição ao conceito.

O debate sobre ESG evoluiu de uma discussão sobre retorno versus valores para uma discussão mais sofisticada sobre gestão de risco de longo prazo. Empresas com governança fraca, alta exposição a riscos climáticos ou práticas trabalhistas questionáveis carregam riscos que não aparecem nos demonstrativos financeiros de curto prazo, mas que podem se materializar em perdas significativas ao longo do tempo. Nesse sentido, de acordo com Felipe Rassi, os critérios ESG, quando bem aplicados, funcionam como um complemento analítico à análise financeira tradicional, não como uma ideologia de investimento.

O futuro do ESG provavelmente não será o de um segmento separado do mercado, mas o de um conjunto de critérios integrado à análise de qualquer investimento sério. À medida que a regulação avança, a divulgação de dados de sustentabilidade se torna mandatória e as metodologias de avaliação se padronizam, a distinção entre fundos ESG e fundos tradicionais tende a se tornar menos relevante. O que permanecerá é a pressão crescente sobre empresas e gestores para que demonstrem, com dados verificáveis, de que forma os riscos não financeiros estão sendo identificados, mensurados e gerenciados. Isso é bom para o mercado, independentemente do rótulo que se coloque.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez